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por Jorge Martins
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Sob o céu cinzento, evidenciando as altas horas da madrugada, uma figura encapuzada paira no topo de um prédio, como uma sombra sobre a cidade. Está debruçada no parapeito, observando um prédio à exatas três quadras de distância. A alguns metros, uma maleta comprida está escorada contra o mesmo parapeito. A figura tem seus olhos fixo em um determinado andar, em uma determinada janela. Assim que a luz iluminar aquela janela, será hora de agir.

A figura se sentou, as costas contra o parapeito frio de pedra. No topo do prédio vizinho, um outdoor brilhava em roxo e amarelo, iluminando toda a extensão onde ela se encontrava. O capuz não a ajudaria a se esconder, pensava. No outdoor, uma modelo sorridente tomava refrigerante de canudinho entre caracteres japoneses. Eram quase duas horas da manhã, constatou, checando seu relógio de pulso. Ela esperava que aquela janela fosse iluminada logo. Quanto mais a figura esperava no topo do prédio, mais sua inquietação aumentava.

Inquietação que era reflexo dos tempos bárbaros em que vivia. Do alto de seu prédio, ela podia avistar uma das principais ruas da cidade. Nem dois dias atrás, a figura havia participado de um protesto naquela mesma rua. Os sinais do conflito ainda estavam por lá. Detritos, focos de incêndio já apagados, sangue… Com sorte, a chuva que parecia se armar sobre sua cabeça iria lavar estes vestígios.

A população protestava contra os chamados flagelos: pessoas que haviam recebido próteses tecnológicas. Protesynth, a empresa que havia desenvolvido as próteses estava sob escrutínio público. Eles forneciam as próteses para hospitais, ou as vendiam para quem pudesse pagar.

Pequenas polêmicas foram marcando a reputação da Protesynth. Um jogador de futebol corria mais rápido e por mais tempo com as pernas aprimoradas. Um halterofilista quebrou recordes de levantamento de peso por conta de seus braços tecnológicos. Um lutador profissional foi banido do esporte por fazer uso destas próteses. Pessoas voltavam a enxergar, doenças eram curadas, e performances eram melhoradas.

A figura sobre o prédio entendia o motivo da indignação popular. Era impossível competir de forma justa contra quem usava próteses. Os puros, como se chamavam os que não tinham nenhuma prótese, desprezavam os flagelos. Pessoas perderam seus empregos por terem as tais próteses, mesmo que fossem por questões de saúde. Não existe anistia para quem faz uso do que a população julga ser profano.

E no meio de tudo isto, inflamando a população, um senador. Sorridente, de boa aparência, discursava contra os flagelos. Eles não poderiam se manter imunes diante do pecado que cometeram contra a sociedade. Sua fala dava voz a centenas de milhares de pessoas, que preferiam comentar pelas costas. Ele arrebatava multidões ensandecidas para sua causa, sua guerra santa contra os flagelos. Diziam que iria se candidatar para presidente na próxima eleição.

A figura encapuzada não estava contra os flagelos no protesto de dois dias atrás. Mas sim, protegendo e mantendo a ordem. Era para isso que ela era paga. Era para isto que ela entrara para a corporação. Seus esforços foram em vão. Por influência das palavras do senador, o protesto pacífico se tornou uma revolta violenta. Lojas foram saqueadas. Veículos foram depredados. E pessoas foram atacadas. Mesmo tentando proteger a população dela mesma, aquela figura sobre o prédio viu cenas que jamais esqueceria.

Ela viu seus semelhantes, pessoas comuns, dilacerarem flagelos. A figura tentou em vão dispersar uma turba, que arrancava a força a perna-prótese de uma moça, sob seus gritos de dor. Gritos ecoaram quando a perna réplica foi erguida por sobre a cabeça da turba, deixando aquela pobre garota caída no chão, segurando sua coxa ensanguentada. Alguém, que a figura daria tudo para descobrir quem foi, gritou que a outra perna também era prótese. A turba só acalmou quando quebrou a perna da mulher, expondo seu osso.

Infelizmente, a moça não foi a única vítima de barbárie. Felizmente, não houveram vítimas fatais. O senador aplaudiu a população responsável por mostrar que “o povo não iria se submeter a esses monstros tecnológicos”. Estes termos. Esta fala. Esta fúria. Apertavam o coração da figura no telhado do prédio. Por que ela também convivia com um destes “monstros tecnológicos”.

Seu filho de seis anos. Ele mal aprendera a caminhar quando foi vítima de um motorista imprudente. Perdera as duas pernas, logo acima do joelho. As próteses que usava, conectadas nos músculos e ossos do que restou de suas pernas, permitiam que ele tivesse uma vida normal. Que ele fosse uma pessoa normal. O estômago da figura se embrulhava em pensar em seu filho nas mãos daquela turba.

A luz da janela do apartamento a três quadras de distância ainda estava apagada. A figura resolveu passar o tempo observando as ruas abaixo. Lojas e comércios fechados davam espaço para as criaturas da noite. Cafetões, prostitutas, traficantes. Dali a dois dias, seria a vez de ela fazer uma batida nas ruas e prender estas pessoas. No momento, ela só observava.

Apesar da população no geral não aceitar os flagelos, eles eram partes da sociedade. Se as próteses não eram conseguidas em hospitais, eram compradas no mercado negro. E a população pobre, que mais precisava delas, não tinha acesso às peças novas. Apenas às avariadas, roubadas ou de má qualidade. A figura não sabia o que havia acontecido com a perna prótese da moça atacada, mas podia imaginar.

E as criaturas da noite, nas ruas abaixo de seu telhado, faziam amplo uso das próteses. Prostitutas usavam implantes de seios e glúteos que aumentavam de tamanho para agradar aos clientes. Algumas usavam olhos e cabelos que mudavam de cores. Tudo para agradar uma população que as desprezava. A figura tinha certeza de que muitos que participaram do protesto violento estavam agora escolhendo a cor dos olhos e o tamanho dos seios das mulheres que trabalhavam nas ruas abaixo.

Um homem caminhando com pressa na rua lhe chamou a atenção. Usava um casaco cinza, velho e puído. Desviava das pessoas no caminho, tentando chegar a um objetivo que só ele sabia. Os cabelos eram sujos. Quando ele olhou para os dois lados ao atravessar a rua, a figura pode notar que seu maxilar inferior era uma prótese. Prateado, rústico, usado. Possivelmente adquirido de segunda mão. Com certeza não estava ali por motivos estéticos.

Um carro finalmente entrou no estacionamento do prédio vigiado pela figura. Ela podia reconhecer aquele veículo. Pertencia ao senador. A figura se levantou de onde estava, caminhando até a maleta. A maleta continha um rifle de caça, desmontado, recolhido em uma batida. Talvez naquela mesma rua. Ela soube do rifle por um colega. Não havia sido difícil contrabandear o rifle para fora da delegacia. E ela só precisava dar um tiro.

Uma bala. Seria o suficiente para acabar com toda a barbárie, toda a violência dos últimos tempos. A figura montou o rifle, o posicionou no parapeito do telhado e apontou na direção da grande janela da sala daquele apartamento. O rifle não possuía mira, e nem era necessário. Assim que decidiu por seu plano, logo após os protestos, trocou seu olho esquerdo por um globo ocular sintético. Era capaz de fazer um zoom melhor do que qualquer mira que pudesse usar. Podia gravar cenas e tirar fotos. A recuperação e adaptação haviam sido incrivelmente rápidas, como geralmente eram com próteses de última geração. A figura pagou caro no mercado negro, não só com dinheiro. A habilidade de fazer vista grossa também era uma moeda importante.

Ela faria a bala cruzar a distância das três quadras. Passaria na frente de todos os outdoors de neon, refletindo suas cores. Alcançaria a janela, atravessando o vidro sem esforço. Perfuraria tecido, pele, músculos, ossos. A figura poderia fazer a bala explodir no peito do senador, arrebentando seu coração. Ou em sua cabeça, se ela quisesse um caixão fechado.

Seu olho-prótese estava conectado com os sistemas de outdoor da cidade. Um favor que a figura teve que cobrar de um velho amigo que trabalhava na central que regulamentava as propagandas que apareciam nos prédios. Ele já deveria estar longe uma hora dessas, se fosse inteligente. Ao toque de um botão, a imagem do senador morto apareceria nos outdoors que a circulavam, e em todos os outdoors da cidade. Todos saberiam o destino do senador que inflamava as massas contra os flagelos.

Um único tiro poderia resolver tudo. Poderia mesmo? Esta era a dúvida que pairava em sua cabeça desde que decidiu por seu plano. E ela só aumentava, agora olhando para a janela daquele apartamento. A figura poderia puxar o gatilho, e acabar com a vida do senador. Mas isto o tornaria um mártir da causa. Outros iriam usar sua plataforma, sua fala, para mover a massa como o senador fazia.

Podia então atirar em seu braço. O rifle era potente o suficiente, e a figura era habilidosa o suficiente para arrancar o braço logo acima do cotovelo, com precisão cirúrgica. Em sua cabeça, isto só pioraria a situação. O senador usaria este ataque como uma tentativa de assassinato, exibindo o resto de seu braço com orgulho, mostrando que não iria se dobrar para os flagelos.

O senador entrou na casa, e a figura o observou do topo de seu prédio. Ele tirou o casaco, onde ela notou as marcas de batom em seu pescoço. A hora era aquela, ela só precisava puxar o gatilho. Mas não o fez. O senador desavisado tirou os sapatos e se dirigiu para o banheiro, saindo do campo de visão da figura. Ela suspirou, aliviada por ter este tempo para poder decidir o que iria fazer.

A figura no topo do prédio não notou quando o homem de mandíbula prateada entrou no prédio do senador. Também não notou quando o mesmo homem atacou o segurança da recepção e subiu ao andar em que vigiava. O senador saiu do banheiro, enrolado em um roupão branco, com os cabelos molhados. Se a figura quisesse atirar no senador, esta seria sua chance.

Ela hesitou. E em sua hesitação, o destino do senador foi selado. A fechadura da porta de entrada explodiu, o estrondo ressoando pelo apartamento e chegando às ruas abaixo. O homem de mandíbula metálica e casaco cinza estava parada no portal, de revólver em punho. O senador recuou quando aquela figura entrou em seu apartamento. Ele dizia coisas que a figura no telhado não conseguia compreender. Ler lábios quando um deles não se movia era difícil.

O homem apontou a arma para o senador. Ele levantou as mãos, e a figura pode ver que ele claramente implorava por sua vida. A hesitação e a dúvida sumiram, abrindo espaço para a determinação, embasada em seu medo de tornar aquele homem um mártir. O juramento e o senso de dever do seu trabalho a fizeram puxar o gatilho.

A bala cruzou a distância das três quadras. Refletiu as cores de todos os outdoors. Alcançou a janela e atravessou o vidro sem esforço. Atingiu o metal negro do revólver na mão do homem no apartamento, arrancando o cano e fazendo o tambor cair da arma, espalhando as balas no chão. O rifle era potente e ela era habilidosa.

O homem correu, saindo pela porta arrebentada. Viaturas de polícia já o esperavam no térreo, prontas para leva-lo. O senador olhou desconcertado, primeiro para o local onde o homem estivera. Depois para os restos da arma e as balas no chão. E finalmente para a janela, onde um pequeno buraco evidenciava por onde a bala teria entrado. Ele não pode ver a figura no topo do telhado, três quadras de distância.

Mas ela pode vê-lo. E pode ver uma forma no meio de seu peito, por dentro do roupão aberto. Era redonda, com um acabamento prateado e o logotipo da Protesynth no centro. Era uma prótese. Caríssima. Não era utilizada por motivos de saúde, ela servia para auxiliar o coração a trabalhar, conferindo uma maior resistência e estamina para quem a usava. O exato argumento das falas do senador contra os flagelos.

Uma imagem. A imagem do senador, com feição confusa e roupão aberto, evidenciando sua prótese, valia ouro. Muitos pagariam largas quantias por ela. O próprio senador pagaria uma pequena fortuna para não ter aquela imagem divulgada, pensava a figura enquanto guardava seu rifle. Ela começou sua caminhada até a escada de acesso do prédio, enquanto clicava em um aplicativo em seu celular. A imagem do senador, com feição confusa e roupão aberto apareceu no topo do prédio vizinho, repetida em cada outdoor, em cada rua.